Coisificando angústias

Insisto em coisificar minhas angústias. São os dias pálidos, as músicas tristes, a casa assombrosa, a cidade idiota, o povo irritante... Isso acontece sempre porque transfiro meus desesperos a coisas externas. Minha angústia, de repente, se encontra fora de mim, à minha frente, que se reflete a mim mesmo, como uma troca vingativa.

O mundo se torna um espelho. Externalizo-me no mundo e o mundo internaliza-se em mim, com o adendo de que o internalizo juntamente com o que expus de mim nele. 

Vejo o mundo com a opacidade que a “catarata aflitiva” da angústia me impõe. Num instante, torno-me um ser carregado com uma penumbra que impede de eu me relacionar com o que me rodeia com a mesma clareza de outrora.

O peso da aflição me impede também de ser leve e eloquente em minhas expressões. Isso impossibilita prolongar-me em descrições, narrativas, conversas, escritas...

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