O bloqueio do individualismo

JANELA | Salvador Dali
- O que se viu, andarilho?

- Muitos homens, meu senhor! Muitos homens!

- De todo o percurso, apenas viu homens, meu caro?

- Não, senhor. Vi também muitos muros.

- Que muros? Homens e muros? Só viu construções?

- Não, senhor. Vi homens e muros invisíveis, que só os via quem sensibilidade tivesse.

- Explica-me, viajante!

- Os homens se constroem sem uma fundação firme, meu senhor. E crescem com a necessidade de construir paredes ao seu redor, como se o perigo viesse apenas de fora.

- Isso está confuso, prezado!

- Vou lhe explicar. Vi muros ao redor dos homens; mas não muros de pedras. Vi paredes erguidas pela arrogância, ambição e superioridade. Vi, em contrapartida, alicerces frágeis, feitos sobre areia movediça, que não suportam qualquer enxurrada. Os muros são o escudo, pensam eles, dos choques externos. Pretendem se formar fortalezas. Porém, suas colunas são de cipó verde, que ao passar dos dias se fragilizam, entortam, e podem vir a ruir. Não percebem que o maior perigo está naquilo que eles constroem de si mesmos.

- Mas, por que os muros não sustentariam os abalos?

- Porque eles são frágeis como um véu: quem está de fora ainda pode perceber, mesmo turvamente, a “essência” daquele que se encobre.

- Se você conseguiu ver aqueles que estavam encobertos, por que se indignou tanto com os muros?

- Porque os muros são o germe dos conflitos. Eles existem para separar os de dentro dos de fora. Quando os de dentro não querem se igualar àqueles que estão do lado de lá erguem barreiras de contenção. E eu não entendo como pode haver ilhas de indivíduos num mundo que precisa cada vez mais do oceano que são os outros.

- Mas, andarilho... Se você viu tantos homens, mesmo com muros, por que reclama? Eles não estavam juntos?

- Porque nessa “união” existia mais choque de paredes que contatos pessoais desprovidos de prisões internas. Era quase uma arena de carros de bate-bate: para onde se virava havia um escudo humano ao lado pronto para o choque.

- Mas o que tudo isso gera e por que você ficou tão desiludido?

- Senhor, você já imaginou a impossibilidade de duas bolhas de plástico se fundirem uma na outra? Creio que sim. Assim também são os homens dentro de seus muros: cada um preocupa-se com seu único conjunto de valores e de crenças, encarcerado naquele limite individual. O outro, também rodeado com seu escudo, torna-se outra coisa que não o pertence. E isso gera uma sociedade solitária. Por fim, desiludi-me pela indiferença endêmica que acomete a todos, mascarada pela presença fajuta que a tecnologia promove no seio da casa de cada um. A preocupação com o outro se esvanece no próprio limite de seus muros, tendo em vista que a extrapolação dela para o alvo é interrompida pelas paredes que bloqueiam essa fuga. Todo mundo se encontra num casulo, mas que a metamorfose não chegou (e talvez não chegará) a seu estágio final de liberdade. Todos são uma prisão de si e para si mesmo. O outro soa apenas como uma réplica aos olhos daqueles que o enxergam: “se estou bem, ele também deve estar”. No meio de tudo isso, senhor, os homens se tornam como que bolas de bilhar: cada uma usando as outras para alcançar um objetivo, mas sem nunca se unirem e sempre se resvalando.

- E o que tudo isso tem a ver com sua experiência de ter vivido esse individualismo pelos outros?

- Senti-me como um prisioneiro, mesmo entre tantas pessoas. Senti que minha abertura a outrem foi compulsoriamente negada, porque ele não mais se tornara uma abertura a mim, mas apenas um acabamento impenetrável. Em suma, senhor, parecia que eu era somente uma coisa entre tantas outras. E essa indiferença, se não se tornar maleável, acabará infectando todos forçadamente, porque não restarão escolhas mesmo para aqueles que querem escolher. E eu não mais poderei andar por aí afora sem ter a quem recorrer, contatar, formar vínculos.

Comentários