Boécio: a Providência, o Acaso e o livre-arbítrio

FILOSOFIA COM BOÉCIO NA CAMA | Autor
desconhecido
Este é o quarto e último texto temático sobre a obra A consolação da filosofia, de Boécio.

Após os temas “Fortuna”, “Felicidade” e “Mal”, este escrito versará, como o título já traz, sobre a Providência, sobre o Acaso – se ele existe – e sobre o livre-arbítrio.

Boécio inicia o Livro V indagando se o Acaso realmente existe. Assim, define-se o “acaso” como um acontecimento produzido acidentalmente, sem uma sequência de qualquer tipo de causa. Dessa forma, o acaso seria algo sem uma causa; seria uma espontaneidade completa.

Por meio da personagem da Filosofia, ele questiona que “se Deus obriga todas as coisas a se dobrarem às suas leis, onde haveria lugar para o acaso?”

Sendo tudo o que há regido pelas leis instituídas pela Providência divina – como vimos no texto anterior a este – é uma verdade evidente e que nunca foi contestada que algo não pode surgir do nada.

Se do nada nada surge, é certo que aquilo que pensamos ser o acaso não pode surgir do nada.

Se o acaso é definido como um acontecimento sem uma causa, e não sendo possível alguma coisa acontecer a partir do nada puro, logo, a palavra “acaso” não tem sentido.

Sendo o acaso impossível, tudo é movido pelas leis da Providência divina, que retribui os méritos aos merecedores. E sendo tudo movido pelas leis divinas, todos os acontecimentos obedecem a um encadeamento de causas e efeitos. Com esta conclusão, Boécio indaga se existe o livre-arbítrio.

A constatação é de que este último existe. Todos os seres dotados de discernimento e de capacidade de escolha são constituídos com o livre-arbítrio. É este o responsável pelas escolhas daquilo que é conveniente e procurado e pela recusa daquilo que deve ser evitado.

Com isso, o homem é mais livre conforme se aproxima mais das leis divinas, enquanto é mais prisioneiro ao passo que se deixa controlar pelos instintos corporais, carnais e pelos vícios, os quais suprimem a capacidade da razão.

Contudo, intriga Boécio o fato de tudo ser regido por leis eternas da Providência, as quais predeterminam todas as ações – inclusive da alma humana –, e, ao mesmo tempo, concebermos a existência do livre-arbítrio. Ou seja, se a Providência divina detém a presciência – o saber antecipado – de tudo o que ocorre e ocorrerá, como pode o homem possuir a liberdade de escolha, se tudo está predeterminado?

Para superar este impasse, é preciso salientar que, mesmo a Providência estipulando as leis originárias de tudo o que há, o desenrolar das coisas provém do Destino pelo qual elas se movem.

A presciência não acarreta que as coisas sabidas ocorram necessariamente, uma vez que algo acontece não em virtude de algo ou alguém saber que acontecerá, mas em virtude de suas próprias propriedades. Com isso, supera-se a confusão de pensar que a presciência divina implica o acontecimento necessário daquilo de que se sabe.

A presciência não é o mesmo que vontade, para que aquilo de que se tem ciência acontecerá porque é sabido que tal. Algo ocorre não porque Deus sabe de seu acontecimento, mas porque é de sua própria natureza que ocorra, intermediado pelo Destino.

Para fechar este raciocínio da Providência, Boécio, dando voz a Filosofia, afirma que devemos compreender o divino não pelo tempo ao qual estamos imersos, mas em sua eternidade.

Deus não está sujeito ao tempo tal qual nós estamos. Ele é eterno. A eternidade é a “posse inteira e perfeita de uma vida ilimitada” (V. 11). Deus, porém, não é um ser de existência ilimitada, porque uma vida ilimitada ainda está sujeita à passagem do tempo. Deus é a unidade do tempo, no qual não existe passado e nem futuro. Ele é presença total; abarca todas as coisas de uma só vez, de modo que tudo o que existe está contemplado na eternidade divina.

Deus é a conjunção perfeita de tudo. É alheio a tudo o que concebemos como temporal. Seu tempo presente perpétuo vê tudo em um desenrolar contínuo e indivisível, porquanto este desenrolar participa da eternidade.

Para Deus, não havendo passado nem futuro, mas um presente perpétuo, não é contraditório pensarmos, ao mesmo tempo, na sua presciência e no livre-arbítrio.

Por que isso? Porque, segundo Boécio, há duas espécies de necessidade (necessidade no sentido filosófico do termo: quando ocorre algo que não poderia ser diferente do que é). Uma é absoluta; outra, condicional.

A necessidade absoluta é aquela que não poderia ser diferente do que é em virtude de suas próprias propriedades, ou seja, quando acontece algo que poderia ser prescrito de antemão, justamente por não a ser possível acontecer de outro modo.

A necessidade condicional é aquela que poderia ser diferente, mas, vista no momento de sua concretização – no presente –, ela torna-se necessária por ter se tornado o que é, embora pudesse, antes, ter ocorrido de outra forma.

Exemplos de necessidades absoluta e condicional, respectivamente: a soma de dois e dois sempre dará quatro; e eu estou escrevendo este texto agora (no momento em que escrevo). O ato de escrever o texto, no presente, ou seja, quando efetivamente o escrevo, torna-se uma necessidade pelo fato de não ser possível que eu não o esteja redigindo.

Após a explicação das duas espécies de necessidade, fica compreensível o fato de Deus ter a presciência das coisas necessárias por si mesmas e até daquelas que poderiam não ocorrer. Isso porque, vivendo Deus num presente perpétuo, sem a intervenção da divisibilidade do tempo, todas as coisas são necessárias.

Apenas para os homens e as coisas passíveis de mudança, que vivem num momento entre passado e futuro, é que existem coisas necessárias por si mesmas e apenas possíveis. Entretanto, para Deus, tudo é necessário, uma vez que Ele vive numa constante presentificação, na unidade de tudo o que há.

Então, para concluir, de acordo com o pensamento do filósofo, as coisas acontecem aos homens – tanto o mal como o bem – obedecendo a uma lei geral, que ora tem a contribuição humana, ora tem apenas o desenrolar natural das coisas que obedecem a um “fluxo” do Destino.

Ao fim deste texto, e com uma visão geral sobre todos os outros precedentes, podemos perceber que Boécio, em suma, quer que nos conformemos com aquilo que não podemos mudar. Há muita coisa que não está ao nosso poder controlá-la.

Cabe ao homem viver de uma forma que se aproxime de Deus, cultivando a razão e vivendo de acordo com as leis que o distanciem da ignorância. 

O Bem supremo só é alcançado pela prática de outros bens auxiliares, não sendo possível ser alcançado pelos caminhos percorridos pelo mal.

Mesmo quando a má Fortuna abate sobre si, não é momento de se desesperar. É nos tempos mais difíceis que o homem tende a se elevar e compreender as coisas por elas mesmas.

A consolação da filosofia é um itinerário de sabedoria – teológica – que auxilia o homem comum a entender e a formar a si mesmo e, mais ainda, um consolo aos mais flagelados pela “sorte” da vida.

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